quinta-feira, 24 de abril de 2008

Vontade

No antro do culminar,
fala-se do interior.
Ansiedade de espalhar
o gosto de respirar,
dar de mão beijada o amor.

Ter vontade de abraçar,
e de falar com uma flor.
De rir e de cantar,
sem ter medo de encontrar,
o nosso eu interior.

Acreditar na paz,
que a vida não é séria.
Mas uma viagem que me apraz,
ser feliz na miséria.
Não olhar para trás.
Mente sobre a matéria.

(Renato Folgado)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Amar o próximo

Sinto-me diferente há já uns dias.
A minha precepção do presente
é como comer a realidade ás fatias,
demasiadas,
que fico doente.

Sentado no ar
e de mão no queixo,
tento absorver
o que não me deixo pensar.

Linha de pensamento quebradiça,
que quebra à mais fina distracção.
Talvez seja a perguiça.
Perguiça monstruosa que habita,
na longa e contínua evolução.

E tento com tamanho desespero,
ver se a lógica não me despista.
Compreender que amar o próximo,
É o melhor ponto de vista.

Sinto-me com mais intensidade,
mas sem antes e depois.
Porque no mundo ideal,
um mundo de que tenho saudade,
um mais um igual a um,
um todo de igualdade.

(Renato Folgado)

segunda-feira, 21 de abril de 2008

1/4

Luzidias e espelhadas,
são as janelas do meu quarto.
Um tapete e uma cama
um candeeiro e um retrato.

Amigo é o meu retrato,
com olhos de olhar para mim.
Também tenho um guarda-fatos,
vermelho e branco de marfim.

Tenho também para as palavras,
um sitio que prezo bastante.
Histórias de amor imortais,
Tudo apenas numa estante.

Belo quarto o meu...
Fonte da minha criação,
Sítio digno de museu,
do tecto até ao chão.

(Renato Folgado)

Cantinho

Ébrio, entrei...
Parei e olhei.
Divagar era lei,
e logo me sentei.

Aguardente de palavras,
Confuso fiquei,
teorias parvas,
de que nem sequer falei...

Tempo que voa,
por entre a gente,
o fado ecoa,
de encontro ao presente...

Amigos, ideias,
música e bem estar,
que sitio melhor,
em vez deste lugar.

(Renato Folgado)

Prazer de olhar...

Velhos tempos de inocente...
Velhos tempos de fantasia...
Velhos tempos de presente...
Velhos tempos de alegria...

Velhas palavras de amigo...
Velhas palavras de dor...
Velhas palavras de castigo...
Velhas palavras de amor...

Velhas memórias de ouro...
Velhas memórias de aventura...
Velhas memórias de choro...
Velhas memórias de amargura...

Velhas saudades de viver...
Velhas saudades de mim...
Velhas saudades de morrer...
Velhas saudades do fim.


(Renato Folgado)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Triste

Triste...
Decadência de querer mais do que se imagina,
vontade de comer o vazio da vontade.

Escuridão quase total do ser com que nos parecemos...
Querer ser a vontade e habitar no canto minúsculo da ignorância.
Tentação mortal... Saudade.
Confusão de andar em circulos,
de ver á frente o que acabou de passar.

Passa uma e outra vez o enjoo do bem estar.
Atingir o que se pensava ser o objectivo e atingir o inatingivel sem se perceber.
Não querer.
Desejar parar o tempo para não pensar em nada e devorar frustrações sentimentais.

Triste...

Ambição de ambiguidade de escolha.
Ser desertor do céu do eu e escolher o nada em vez do tudo.
Tornar a voltar.
Apenas ver.
Não querer tocar nem sentir.

Ser tranparente e tactear o ar que não se respira.
Transpirar sentidos.
Ouvir o vazio do espaço e vir sem propósito nenhum.
Querer sempre mais nada.

Triste...

Ligar a demência brilhante do som e das palavras que não se sabem nem se querem ouvir.
Ser clausura,
sabor amargo,
irrelevância mórbida de ser sempre ébrio.
Nunca sóbrio para o sentido lógico das coisas indefinidas da vontade que fere o não vivo.

Morto para contemplar sem querer ver a beleza irracional e aparte do finito andar nauseabundo.
Defunto para com o palpavel que as palpebras tacteiam de manhã.
Não haver dias.
Não haver tempo.

Só o gotejar dos excrementos da alma.
Vida passada.

Triste...

(Renato Folgado)

Canção dos Mortos

Vou me embora devagar...

Tenho tempo de me despedir das memórias que ficam para trás.
Flutuo pelos olhares vazios do que não me vê.
Voo com a leve brisa do adeus que digo.
Sorrio com a certeza de que é a ultima vez.
Abraço e beijo tudo o que me toca na ponta dos dedos.

Sinto-me puxado para trás e estico-me para alcançar o tempo.
Vou-me tranformando na névoa da manhã fria.
O céu chora comigo o medo de me afastar de tudo.
Vou para algum lado.
Já ouço a música da matéria.

Sou dourado e aceno ao espaço e as estrelas enquanto vou desaparecendo...

Adeus!
Agora sei onde vou!
Nunca me esquecerei de que fiz parte de algo tão profundo e bonito como o mundo!
Só agora faz sentido!
Amo-vos!
Amo-vos a todos!

Desde o ser mais infímo ao maior de todos.
Desde o ser vivo ao ser morto!

Sou a lágrima que verte, daquele que se lembra que fui...
Sou o sorriso que a memória daquele que se lembrou da felicidade ou tristeza que causei...

Quero voltar...

Desapareço.

(Renato Folgado)

Sexo

Sexo!
Carne quente, energica e suada.
Fluidos movimentados apenas pelo ser esfomeado.

Meta anal do extremo carnal.
Prazer incontrolável do mais animalesco instinto.
Dor molhada e gratificante da aceitação.
Cheiro orgasmico da vulva e do falo em rotação astral.

Milhares de estimulos carnais,
oriundos da mais profunda imagem imaginada
do perverso e obscuro sentido moral.

Sede das fragrâncias do estimulo em que me embranho.
Ranho que escorre lentamente de mim,
num momento de epifania.

Desvaneço e esqueço tudo o que me rodeia,
de maneira suave e calma,
caio de novo em mim,
enquanto ainda sinto o fisico em espasmo.

(Renato Folgado)

Difícil

É fodido...

Estendido,
caí de corpo e alma nas malhas do mal.

Magoei-me e aos outros que me empurravam para o abismo...
Confuso e de mãos na consciência percebi que era inevitavel, o afundanço...

Já me sentia sugado pelo pântano viscoso e húmido da inutilidade.
Agarrei-me ao que podia,
o apenas sentir que as coisas aconteciam por alguma razão...
Não sei qual.

O sol já nasceu,
infelizmente não o de todos.
Não tenho sombra,
logo ninguém me segue no percurso invisivel de não acreditar em como é possivel,
a mentalidade subjacente ao amor,
ser de tal maneira áspera, que aleija qualquer um que se aproxime.

O amor é de dimensão monstra...
Salvaguardem os que viram neste caminho pedregoso e irregular...

(Renato Folgado)

Tempo

Não existo.
Apenas me criaram.
Sou uma palavra tão forte como a morte,
que vos leva a todos.

Defino a noite.
Sou o amanhecer.

Digo ao sol para nascer,
e nada existe sem mim.
Mando em tudo,
e nada sou.

Sou senhor dos mortos e dos vivos.
Sou dono dos mundos,
e apenas sou para servir.

Digo-te quando hás de dormir.
Sou a morte inventada a partir da lógica do nada.
Não sinto, não sofro por ti.
Não sou vivo nem morto.
Apenas sou.

Voo à volta do universo,
sem paralelo nem fim.
Nunca nasci.
Sempre existi.

Fiz o que nunca imaginaste,
não o que te é possivel,
mas sim o que te é impossivel imaginares.

Estou em tudo o que conheces e não conheces.
Sou o Deus e sou as preces.

Apenas existo através de ti.

(Renato Folgado)

A Pedra

Tenho tanto medo que não me atrevo a mexer.
Acho que estou sozinha.
Passa tanta gente,
e nenhuma acredita,
ou sequer põe em questão,
que posso ser inteligente.

Que posso fazer?
Não me atrevo a mexer!

Solidão...

Causa do desacreditar das massas.
No escuro,
suja,
imóvel.

Sou dura,
e faço o que mais ninguém faz,
e que todos desejam.
Sobrevivo ao tempo.

Para todos,
não sou dotada do pensamento.
Pensam.

Apenas desejo que um dia um menino,
me pegue e me ponha no bolso,
para um dia mais tarde se lembrar,
que lhe marquei aquele momento.

Mas sempre sem me mexer.
Não falo com ninguém,
porque nunca ninguém falou para mim!

Talvez um dia o façam,
mas trata-los-ei como me trataram sempre,
porque sou inteligente e sirvo para um fim.
Tal como toda a gente.

(Renato Folgado)

Plasticina

Acabou!

Não acredito como fui estupido ao ponto de pensar que podia
confiar em alguém...
Já paguei esse erro vezes de mais para me deixar enganar outra vez!
Não acredito!!!
Sou uma merda!!!

Não valho sequer a materia de que sou feito!!!
Que sentimento é este que me faz verter lágrimas como se fossem gotas da chuva?
O que é que me está a acontecer?

Sou um monstro!
Feito de plastisina e a minha utilidade é tornar as outras pessoas mais fortes.
Pisam-me e cospem-me na cara como se não fosse ninguém.

Valeu a pena?

Talvez, saberei quando encontrar alguém.
E então desempenharei a minha função...

(Renato Folgado)

Meio homem

Nunca mais cai o pano.
Nunca mais acaba o espectáculo que me colhe e extasia
numa espiral ardente de ausência,
dormência da rotina que flui,
-"Bom dia! Alegria!".

Sozinho no tempo,
no espaço, vazio...
O dia surge-me com a lua e na noite esqueço o sol tardio que me fez ver outrora,
as cores da inocência...
Acho que sou meio homem agora.
Já não me apetece que caia o pano,
mas sim que se acenda o holofote brilhante
e me esqueça na multidão.

Passar o resto dos dias a olhar para o chão na esperança de encontrar o buraco onde me encaixo,
e me torno parte de alguém que me dê a mão,
e que não me large ou me empurre para baixo.
Será que esse alguém existe?
Pensar que não, é triste...

Pensar que sim,
ilusão,
de querer que haja algo mais além,
só para não me sentir confuso e sozinho,
passar despercebido,
mascarado de inutil.

Fujo depressa nesse caminho,
fantasmas assombram-me de preconceitos...
Sou um cobarde que acredita nos defeitos,
desacreditando dos sonhos daqueles que se acham perfeitos,
só pelo prazer de esconder a dura realidade do ser.

Enfim...

Sonho de partilhar o eu com o que me rodeia,
necessidade de me encontrar e conseguir...
Acreditar no verdadeiro sentir...
Mas só me minto,
porque estas palavras não são de quem quer acreditar,
mas sim,
sucumbir a razão de existir e de querer saber o que é amar.

(Renato Folgado)

Erro

Acabou!

Não acredito como fui estupido ao ponto de pensar que podia confiar em alguém...
Já paguei esse erro vezes de mais para me deixar enganar outra vez!

Não acredito!!!
Sou uma merda!!!

Não valho sequer a materia de que sou feito!!!
Que sentimento é este que me faz verter lágrimas como se fossem gotas da chuva?

O que é que me está a acontecer?

Sou um monstro!
Feito de plastisina,
a minha utilidade é tornar as outras pessoas mais fortes.

Pisam-me e cospem-me na cara como se não fosse ninguém.
Valeu a pena?
alvez…

Saberei quando encontrar alguém.
E então desempenharei a minha função...

(Renato Folgado)

Libertação

Cor indefinida do eu...
Proucura contínua, infinita...
Nada do que tenho é meu
e em quem sou ninguém acredita.

Talvez algo ao alguém me fale,
sobre o elo que tudo liga...
Alguém que se chegue e me diga,
que o sentido mudo não se cale.

Preciso de acreditar,
que tudo faz parte do que fazemos...
Respiramos o mesmo ar
chegar ao cume e gritar,
-"Quero ser livre!!!",
e seremos.

(Renato Folgado)

Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

(Herberto Helder)